Debate sobre violência contra a mulher em dias de futebol defende campanhas dentro e fora do campo
Proposta pelos deputados Martins Machado e Doutora Jane – ambos do Republicanos –, a audiência pública levantou “cartão vermelho” para as agressões e ofensas contra as mulheres
A Câmara Legislativa do Distrito Federal colocou em discussão, na noite dessa quinta-feira (19), a prevenção da violência contra a mulher em dias de partidas de futebol. Proposta pelos deputados Martins Machado e Doutora Jane – ambos do Republicanos –, a audiência pública levantou “cartão vermelho” para as agressões e ofensas contra as mulheres, dentro e fora dos estádios; e defendeu campanhas educativas e de conscientização durante os jogos e fora do “tapete verde”.
“O futebol é uma paixão nacional, um lugar de alegria, de encontro e de família, mas, infelizmente, também tem sido cenário de desrespeito e agressões contra mulheres”, afirmou Martins Machado.
O distrital apontou que, em dias de jogos, a violência contra a mulher pode aumentar em 20%. “Um dos principais fatores por trás disso é o consumo excessivo de bebida alcoólica; a mistura de emoção, rivalidade, frustração e álcool potencializa o comportamento agressivo, e muitas mulheres acabam sendo vítima dessa realidade”, avaliou.
Machado levantou, também, a questão da violência de gênero dentro de campo, fazendo referência a casos de ofensas a profissionais mulheres das equipes de arbitragem. “Isso reflete a cultura de desrespeito que ainda insiste em existir. Quando uma mulher é ofendida em público, em um campo de futebol, a mensagem que fica é perigosa: a de que ela pode ser desvalorizada, diminuída e atacada”, lamentou.
Na opinião da deputada Doutora Jane, o debate faz parte de uma discussão maior: a violência contra a mulher.
“Esse é um recorte, nós precisamos combater a violência para conseguir diminuir a violência no futebol”, sustentou.
A parlamentar citou dados que classificou como um “contrassenso”: os números de agressões aumentam em torno de 30% quando o time do autor vence; quando empata ou perde, o percentual é de 26%. “De novo, não é sobre futebol. O futebol se torna um gatilho, porque naquele dia tem mais bebida, aí o homem usa essa válvula de escape da alegria ou da frustração e vai descontar em quem? Na companheira”, disse.
Doutora Jane defendeu levar o debate da não violência para dentro do futebol, bem como a inclusão do esporte na rede de luta e combate à violência de gênero. Entre as propostas apresentadas, sugeriu uma “campanha incessante” contra a misoginia dentro e fora das arenas, para alcançar os dirigentes dos times, os jogadores, as equipes de base, as escolinhas e a torcida. “Não pode ser só no mês de março, em todas as partidas de futebol, tem que ter faixas, discursos e debates, e tem que colocar nas camisetas dos jogadores também”, pregou.
O secretário de Esporte e Lazer do governo do Distrito Federal, Renato Junqueira, defendeu o engajamento da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na tarefa conscientização da não violência. Citando o exemplo da final do último campeonato mineiro, que acabou com briga entre os atletas, argumentou: “Quando os jogadores se digladiam dentro do campo, isso acende ainda mais aqueles que já são violentos dentro de casa”.
Distrito Federal
Por sua vez, o diretor técnico da Federação de Futebol do DF, Márcio Coutinho, elencou ações desenvolvidas no cenário local, nos jogos do chamado “Candangão”. Ele destacou a Rede Elas, que tem realizado mobilização ao longo de todo o campeonato. Segundo informou, na partida final do torneio, neste sábado (21), cerca de 60 mulheres irão distribuir 40 mil panfletos no estádio Mané Garrincha. Além disso, o dirigente apresentou o projeto de combate à violência “Na base da paz”, voltado para as categorias sub-11 e sub-13.
Representando o grupo “Mulheres do Brasil”, que congrega pessoas de vários segmentos na luta contra a violência de gênero, Luciana Sales reforçou a importância da educação na prevenção e combate à misoginia no esporte: “A educação atua justamente nisso, em a gente poder discutir, prevenir e evitar que essa violência aconteça, para que a gente possa ser respeitada, possa ter garantidos os nossos direitos e nos sentirmos seguras”.
Também do “Mulheres do Brasil”, Priscila Castro aproveitou a audiência pública para anunciar que serão afixadas mensagens de combate à violência contra a mulher em todas as portas dos banheiros do Mané Garrincha. Ela insistiu, ainda, no papel dos dirigentes de clubes junto aos jogadores, assim como na adesão dos atletas à causa: “São exemplos e influenciadores, precisam falar contra a violência”.
O ex-jogador e diretor-executivo do Ceilândia Esporte Clube, Radamés Furlan, assentiu. “Por ter sido um atleta de futebol de relevância, acho que eu podia ter comentado mais sobre isso, alertado as pessoas e falado sobre essa situação que eu até então desconhecia”, avaliou. O dirigente se comprometeu a sensibilizar os atletas do “Gato Preto” e a abordar o assunto em suas redes sociais. Ele defendeu, por fim, que o debate seja levado para os grandes clubes do Brasil: “Eles têm voz, têm autoridade para falar com o torcedor, com o cara que, no dia do jogo, talvez por uma derrota, ou talvez por excesso de bebida, fica ainda mais agressivo”.
A audiência pública pode ser conferida, na íntegra, na TV Câmara Distrital, no YouTube.
