A situação do Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (IPREV) é extremamente preocupante e exige providências imediatas. Informações oficiais e decisões recentes do Governo do Distrito Federal indicam que o instituto enfrenta sérias dificuldades financeiras, com risco real de não conseguir garantir, em um futuro próximo, o pagamento integral de aposentadorias e pensões. Não se trata de um simples ajuste contábil, mas da preservação de direitos de milhares de servidores públicos.
A gravidade do cenário já era reconhecida pelo próprio IPREV. Em novembro de 2025, por meio da Exposição de Motivos nº 38/2025 – IPREV/PRESI, datada de 22 de setembro de 2025, o instituto apontou explicitamente o déficit e a complexidade da situação. O documento destaca que o modelo previdenciário baseado no chamado “pacto de gerações” vem enfrentando sérias dificuldades de financiamento, uma vez que as contribuições dos servidores ativos já não são suficientes para cobrir os pagamentos de aposentados e pensionistas, impondo um ônus crescente ao ente federativo para manter a solvência do sistema.
Segundo a exposição, o número de servidores ativos no Plano Financeiro caiu de 70.718 em 2022 para 64.866 em 2024, uma redução de 8,2%. No mesmo período, o número de inativos aumentou de 59.001 para 61.794, crescimento de 4,7%, enquanto o número de pensionistas passou de 13.276 para 13.624. A folha de pagamento dos ativos cresceu de R$ 658 milhões em 2022 para R$ 716 milhões em 2024. Já a folha dos inativos saltou de R$ 585 milhões para R$ 724 milhões, e a dos pensionistas aumentou de R$ 92 milhões para R$ 106 milhões. Em 2025, diante da insuficiência financeira, foi necessário solicitar crédito suplementar de R$ 366 milhões, provenientes do Tesouro (fonte 100), para cobrir um déficit que, apenas nos últimos cinco meses do ano, projeta uma insuficiência de aproximadamente R$ 617 milhões até novembro.
Essa crise não surgiu de forma espontânea. Durante o governo Rollemberg, recursos financeiros do IPREV foram retirados do caixa do instituto e devolvidos posteriormente não em dinheiro, mas na forma de imóveis da Terracap e ações do Banco de Brasília (BRB). Esses ativos passaram a integrar o Fundo Solidário Garantidor, criado com o objetivo de assegurar a sustentabilidade do sistema previdenciário em momentos de insuficiência financeira.
Atualmente, no entanto, esse fundo vem sendo utilizado para cobrir déficits mensais. Em 2025, o Governo do Distrito Federal encaminhou à Câmara Legislativa um projeto autorizando o uso de até 100% da rentabilidade líquida mensal do Fundo Solidário Garantidor para o pagamento de aposentadorias e pensões. Na prática, o mecanismo criado para proteger o futuro da previdência está sendo consumido para suprir carências imediatas.
O cenário se torna ainda mais delicado pelo fato de o IPREV ser o segundo maior acionista do BRB, detendo cerca de 19% das ações do banco, que integram o patrimônio do Fundo Solidário Garantidor. A desvalorização desses papéis representa risco concreto de perdas expressivas, enfraquecendo ainda mais a reserva destinada à proteção dos servidores.
Desde novembro de 2025, o IPREV já não consegue fechar a folha de pagamento de aposentados e pensionistas apenas com suas receitas regulares, operando no vermelho. Isso evidencia que as contribuições previdenciárias e demais receitas não são suficientes para sustentar o sistema, transferindo o custo da crise para o futuro dos servidores da ativa.
A lógica adotada é extremamente perigosa: garante-se o pagamento imediato dos benefícios atuais à custa da destruição da segurança previdenciária das próximas gerações. Caso o Fundo Solidário Garantidor seja esvaziado, não haverá qualquer garantia de que os servidores hoje na ativa receberão seus proventos quando se aposentarem.
É preciso destacar que o Fundo Solidário Garantidor é composto majoritariamente por imóveis da Terracap e ações do BRB, ativos de baixa liquidez e sujeitos a fortes oscilações de mercado. Em um cenário de agravamento da crise, a venda desses ativos pode ocorrer com prejuízos significativos, aprofundando ainda mais o desequilíbrio previdenciário.
Diante desse quadro, o silêncio é inadmissível. Sindicatos e servidores públicos do Distrito Federal precisam se organizar com urgência e promover uma mobilização firme e estruturada. É indispensável pressionar a Câmara Legislativa e o Poder Executivo, exigindo transparência, auditorias independentes e soluções estruturais que assegurem a sustentabilidade do IPREV.
A cobrança deve ser direta e objetiva. O governador do Distrito Federal, a vice-governadora, a presidência do IPREV e demais autoridades responsáveis precisam prestar esclarecimentos públicos sobre a real situação do instituto e assumir suas responsabilidades. Transferir o problema para governos futuros ou para os próprios servidores é inaceitável.
A crise do IPREV não é apenas técnica; é, sobretudo, política. E, como toda crise política, somente será enfrentada com pressão, mobilização e vigilância permanente. O futuro previdenciário dos servidores do Distrito Federal está em risco — e a resposta precisa ser imediata.

